quarta-feira, 1 de agosto de 2012

79- Os Bois dos Titãs


 "Garrastazu
  Stalin
  Erasmo Dias
  Franco
  Lindomar Castilho
  Nixon
  Delfim
  Ronaldo Bôscoli
  Baby Doc
  Papa Doc
  Mengele
  Doca Street
  Rockfeller
  Afanásio
  Dulcídio Wanderley Bosquila
  Pinochet
  Gil Gomes
  Reverendo Moon
  Jim Jones
  General Custer
  Flávio Cavalcante
  Adolf Hitler
  Borba Gato
  Newton Cruz
  Sérgio Dourado
  Idi Amin
  Plínio Correia de Oliveira
  Plínio Salgado
  Mussolini
  Truman
  Khomeini
  Reagan
  Chapman
  Fleury"                                       
 ("Nome Aos Bois", Titãs) (1)

A expressão "dar nome aos bois" significa falar clara e diretamente sobre um assunto considerado delicado ou embaraçoso, mesmo que isto seja inconveniente ou desagradável. Chamar as coisas pelo nome, sem meias palavras tem expressões em várias outras línguas, tais como: no italiano - dire pane al pane e vino al vino ("chamar pão de pão e vinho de vinho"); no francês - appeler un chat un chat ("chamar um gato de gato"); no espanhol - llamar al pan, pan y al vino, vino (chamar pão de pão e vinho de vinho"); no  alemão - das Kind beim Namen nennen ("chamar a criança pelo nome" ); no inglês - to call a spade a spade ("chamar uma pá de pá"). (2)
"Nome aos Bois" é uma canção da banda de rock Titãs, presente no disco Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas, de 1987. A canção é interpretada por Nando Reis, e a letra causou polêmica na época do seu lançamento por citar 34 nomes de pessoas famosas por suas atitudes polêmicas.



Que nome(s) você gostaria de acrescentar à essa lista (veja nota 3) ?


NOTAS:
(2) Brewer’s Dictionary of Phrase and Fable (1913)
(3) As personalidades aparecem abaixo com o nome pelo qual são citadas na música.
Garrastazu (1905-1985): ex-presidente militar que governou o Brasil durante o período de 1969 a 1974, no auge da ditadura militar.
Stálin (1878-1953): cruel ditador, ex-dirigente da extinta URSS (União Soviética), de 1924 a 1953.
Erasmo Dias (1924-2010): coronel reformado do Exército Brasileiro que liderou uma invasão à PUC de São Paulo, em 22 de setembro de 1977, onde uma reunião de estudantes pretendia refundar a UNE.
Franco (1892-1975): ditador da Espanha, que governou o país de 1936 a 1975 (ano de sua morte), no regime totalitário intitulado franquismo, baseado no fascismo.
Lindomar Castilho (1940-): cantor e instrumentista popular, conhecido pelas canções Você é Doida Demais e Eu Amo a Sua Mãe e por ter assassinado a sua segunda esposa, Eliane de Grammont, em 30 de março de 1981.
Nixon (1913-1994): ex-presidente estadunidense e republicano que governou o país de 1968 a 1974. . Ficou conhecido por retirar as tropas americanas do Vietnã, pondo fim à Guerra do Vietnã, e por renunciar após ser flagrado em um escândalo de espionagem contra o Partido Democrata, intitulado Caso Watergate.
Delfim (1928-): ministro da Fazenda brasileiro no auge da ditadura militar, de 1967 a 1974, conhecido por arquitetar um grande crescimento econômico do país na época, o milagre econômico.
Ronaldo Bôscoli (1928-1994): jornalista e compositor , conhecido por ser especialista da maledicência. Teve casos de amor com finais infelizes com Mila Moreira, Nara Leão, Maysa Matarazzo e Elis Regina.
Baby Doc (1951-): Jean-Claude Duvalier, filho de Papa Doc, ditador do Haiti entre 1971 a 1985. Com a forte crise econômica e o terrorismo político originado no governo de seu pai, foi obrigado a fugir para a França, onde se exilou em 1985.
Papa Doc (1907-1971): François Duvalier, ditador do Haiti de 1957 a 1971, quando faleceu e foi sucedido pelo filho, Baby Doc. Seu governo foi conhecido pela brutalidade e pelo desrespeito aos direitos humanos.
Mengele (1911-1979): médico alemão do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, durante o regime nazista. Era conhecido como o Anjo da Morte.
Doca Street (?-): ex-corretor de ações brasileiro, conhecido por assassinar em 1976 a socialite Angela Diniz, com a qual se envolveu amorosamente.
Rockefeller (1908-1979), político e empresário americano, vice-presidente dos EUA durante o governo de Gerald Ford, que sucedeu Richard Nixon. Envolveu-se em algumas práticas comerciais antiéticas e ilegais, é lembrado por ter trazido ordem ao caos industrial da época.
Afanásio (1950-): ex-deputado estadual paulista, defende ferrenhamente a pena de morte no Brasil.
Dulcídio Wanderley Boschilia (1938-1998): ex-árbitro de futebol brasileiro, conhecido por apitar partidas tensas e por, fora dos gramados, ter simpatia pelo São Paulo Futebol Clube, o que gerava críticas.
Pinochet (1915-2006): ditador do Chile durante o período de 1973 a 1989. Seu governo, assim como outros regimes militares, também ficou conhecido pelo desrespeito aos direitos humanos e pela perseguição aos opositores.
Gil Gomes (1940-): radialista e repórter policial, famoso por sua voz, seus gestos e sua participação no extinto jornalístico Aqui Agora, do SBT. Gil foi citado por sua atuação no rádio, pois a canção é de 1987 e o jornalístico estrearia em 1991.
Reverendo Moon (1920-), religioso coreano que fundou em 1954 a Igreja da Unificação. Autointitulava-se Salvador da Humanidade, Messias, Verdadeiro Pai, entre outros.
Jim Jones (1931-1978): pastor evangélico estadunidense, fundador da igreja Templo do Povo, que tornou-se sinônimo de grupo suicida após o suicídio em massa ocorrido no dia 18 de novembro de 1978, por envenenamento, em sua isolada coletividade comunitária agrícola chamada Jonestown, localizada na Guiana. Jones foi encontrado morto com um ferimento de bala na cabeça junto a outros 909 corpos.
General Custer (1839-1876): militar estadunidense conhecido pela dureza e crueldade das batalhas que chefiava na Guerra de Secessão norte-americana.
Flávio Cavalcanti (1923-1986): radialista e comunicador brasileiro, conhecido por sua forma de falar agressiva e por achincalhar artistas em seu programa, com direito a destruir no ar os discos dos mesmos.
Adolf Hitler (1889-1945): ditador alemão, líder do nazismo, que governou entre 1933 e 1945 e foi um dos responsáveis pela Segunda Guerra Mundial. Autointitulava-se Der Führer (o Chefe, em alemão).
Borba Gato (1649-1718): bandeirante paulista que, durante a Guerra dos Emboabas, se desentendeu com Manuel Nunes Viana, líder dos forasteiros (emboabas).
Newton Cruz (1924-): general reformado do exército brasileiro, que participou de várias polêmicas durante a ditadura militar no Brasil.
Sergio Dourado (?-): corretor de imóveis brasileiro que fez sucesso nos anos 70, ao dominar o mercado imobiliário do Rio de Janeiro.
Idi Amin (1925-2003): ditador de Uganda, durante o período de 1971 a 1979.
Plínio Correia de Oliveira (1908-1995): político e escritor paulista, fundador da Tradição, Família e Propriedade (TFP), a mais famosa organização católico-tradicionalista do Brasil.
Plínio Salgado (1895-1975): político brasileiro, líder da Ação Integralista Brasileira, partido político de inspiração fascista, durante o governo de Getúlio Vargas. Se exilou na Alemanha em 1938, com o fracasso de uma revolta integralista contra o Estado Novo de Getúlio.
Mussolini (1883-1945): ditador fascista italiano, que governou a Itália de 1922 a 1943. Autointitulava-se Il Duce (o Chefe, em italiano). Foi executado no fim da Segunda Guerra Mundial
Truman (1884-1972): ex-presidente democrata norte-americano, que governou os EUA de 1945 a 1952. Ficou conhecido pela doutrina Truman e pelo Plano Marshall, de contenção ao comunismo,  o primeiro pilar da Guerra Fria. A doutrina e o plano fizeram ainda mais por separar o mundo em duas esferas de influência.
Khomeini (1902-1989): Foi uma autoridade religiosa xiita iraniana, líder espiritual e político da responsavel pela revolução de 1979, que depôs  Mohammad Reza Pahlavi, na altura o xá do Irã.
Reagan (1911-2004): ex-presidente republicano estadunidense. Usava frequentemente sua verve de ator de hollywood em frases que ficaram conhecidas como esta: "Meus caros americanos: tenho o prazer de informar que acabo de assinar uma lei que banirá a URSS para sempre. O bombardeio começa em 5 minutos", disse brincando ao se preparar para a gravação de um programa de televisão. A brincadeira gerou veementes protestos dos soviéticos (1984).
Chapman (1955-): o criminoso americano que assassinou o ex-Beatle John Lennon na cidade de Nova Iorque, em 1980. Desde então, encontra-se preso perpetuamente.
Fleury (1933-1979): ex-delegado do DOPS, que combateu duramente a esquerda durante a ditadura militar.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

78- Boi Morto, de Manoel Bandeira



foto: manoel bandeira ao violão

"Como em turvas águas de enchente,
Me sinto a meio submergido
Entre destroços do presente
Dividido, subdividido,
Onde rola, enorme, o boi morto.

Boi morto, boi morto, boi morto.

Árvores da paisagem calma,
Convosco - altas, tão marginais! -
Fica a alma, a atônita alma,
Atônita para jamais.
Que o corpo, esse vai como o boi morto.

Boi morto, boi morto, boi morto.

Boi morto, boi descomedido,
Boi espantosamente, boi
Morto, sem forma ou sentido
Ou significado. O que foi
Ninguém sabe. Agora é boi morto.

Boi morto, boi morto, boi morto!"(1)

Cada um com seu boi.
Boitempo (2) é o boi de Carlos Drummond de Andrade. Boipaisagem (3) e Boicheiro (4) são os bois de Ferreira Gullar e de Cora Coralina. Os bois que sonham e conversam são os de Graciliano Ramos (5). O boi notabilizado por Manoel Bandeira é o Boi Morto.
Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho nasceu em Recife, em 19 de abril de 1886 . Foi poeta,crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro. Considera-se que Bandeira faça parte da geração de 22 da literatura moderna brasileira, sendo seu poema Os Sapos o abre-alas da Semana de Arte Moderna de 1922. Possuidor de um estilo simples e direto, é tido por alguns como o mais lírico dos poetas. Sua obra é permeada por certa melancolia, associada a um sentimento de angústia, em que procura uma forma de sentir a alegria de viver.  Sofria de tuberculose e sabia dos riscos que corria diariamente. A perspectiva de deixar de existir a qualquer momento é uma constante na sua obra. Faleceu no dia 13 de outubro de 1968, com hemorragia gástrica, aos 82 anos de idade, no Rio de Janeiro, tendo sido sepultado no túmulo 15 do mausoléu da Academia Brasileira de Letras.
“Boi morto” foi alvo de diversas polêmicas desde sua primeira publicação em 1951. Alguns criticaram o hermetismo excessivo, outros a falta de uma vinculação mais clara com os problemas políticos e sociais do tempo. Diferente da fluidez e da expressão cristalina de alguns dos poemas mais conhecidos do autor, “Boi Morto” convida à exploração de outras dimensões, em que a precisão combina-se com o mergulho no indizível a partir de sonoridades, remissões e associações.
O “boi” de Manoel Bandeira fala do estado de fragmentação, destruição e dilaceramento subjetivo.


NOTAS:
1) Fonte: Grupo de Estudos C. G. Jung, Coordenação Dra Nise da Silveira; "A Farra do Boi", do sacrifício do touro na       antiguidade à farra do boi catarinense"; Numen Editora/Espaço Cultural-89/RJ
2) Postagem 74 deste blog;
3) Postagem 75  deste blog;
4) Postagem 76 deste blog;
5) Postagem 77 deste blog;
6) Fonte: Flores, Wilson -UFRJ, XII Congresso Internacional da ABRALIC 2011- UFPR . http://www.abralic.org.br/anais/cong2011/AnaisOnline/resumos/TC0214-1.pdf

terça-feira, 5 de junho de 2012

77- Bois que sonham e conversam, de Guimarães Rosa


         “- Um homem não é mais forte do que um boi ... E nem todos os bois obedecem sempre ao homem...
              - Eu já vi o boi-grande pegar um homem uma vez ... O homem tinha também um pau comprido e não correu ...
              Mas ficou amassado no chão, todo chifrado e pisado...Eu vi! ... foi o boi-grande que berra feio e carrega 
              uma cabaça na cacacunda...”
Em uma conversa corriqueira dois homens discutiam o fato dos bois se comunicarem. Então um deles conta a história de Tiãozinho, um menino órfão que carregava o cadáver do pai juntamente com uma carga de rapadura, ocupando o lugar do pai de guia do carreiro Agenor Soronho. O menino sofria maus tratos do carreiro, porém nada podia fazer, pois esse era amante de sua mãe e quem agora sustentaria sua família. Tiãozinho apenas sonhava que um dia daria um jeito no carreiro.
Por hora, teria que suportar o sofrimento calado.
Num dado momento do conto, Agenor Soronho encontra-se em um sono profundo. Ao seu lado, guiando o carro de bois, Tiãozinho cochila e sonha que está matando o carreiro. Nesse momento seu sonho entra em sintonia com o sonho dos bois, que consideravam o menino um igual, tanto que o chamavam de “bezerro-de-homem”.
          “- O bezerro-de-homem sabe mas às vezes... tem horas em que ele vive muito perto de nos, e ainda é bezerro ...
           tem horas em que ele fica ainda tão mais perto de nos... Quando está meio dormindo, pensa quase como 
           nós bois... Ele está lá adiante e de repente, vem ate aqui ... Se encosta em nós, no escuro...Tenho medo 
           de que ele entenda nossa conversa...
Percebendo que o carreiro estava dormindo, os animais jogam a carroça bruscamente arremessando o homem, fazendo ainda com que uma das rodas passasse por cima da sua cabeça. 
O menino desperta assustado, vendo o carreiro morto.
Agora , segue seu caminho com dois cadáveres dentro do carro de bois. ( Resumo do núcleo central do conto Conversa de Bois, do livro Saragana, de Guimarães Rosa) (1)

Nesse seu conto Guimarães Rosa faz uma alegoria sobre a crueldade do algoz na figura de Agenor Soronho e a justiça de suas vítimas, o menino órfão e os bois, quando trocam de posição se unindo no sonho e recuperando a força que estava na sombra (2).

NOTA:
1) Considerado por muitos como o maior criador em prosa do século XX no Brasil e um dos maiores da cultura ocidental moderna João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 1908. Estudou medicina e trabalhou no interior de seu estado como medico da Força Pública. Conhecendo mais de uma dezena de idiomas em 1934 prestou concurso para o Itamaraty, onde trabalhou como diplomata e como embaixador. Faleceu aos 59 anos no Rio de Janeiro, três dias após sua posse na Academia Brasileira de Letras. Os contos e romances escritos por Guimarães Rosa ambientam-se quase todos no chamado sertão brasileiro. Sua obra destaca-se, sobretudo, pelas inovações de linguagem, sendo marcada pela influência de falares populares e regionais que, somados à erudição do autor, permitiu a criação de inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos e palavras populares, invenções e intervenções semânticas e sintáticas.
Publicado em 1946, “Sagarana” é provavelmente a mais importante estreia em prosa da história da literatura brasileira. Já com 38 anos quando o livro foi lançado, Guimarães Rosa passara mais de uma década trabalhando em suas histórias. A escrita, repleta de neologismos, confunde habilmente o real e o imaginário. O próprio título do livro é um hibridismo criado pelo autor: “saga”, de origem germânica, quer dizer “lenda”, “canto heróico” e “rana” é uma palavra de origem indígena que significa “à maneira de”. Sagarana seria então uma “espécie de fábula”.
2) Sombra é aquela personalidade oculta, recalcada, frequentemente inferior e carregada de culpa, cujas ramificações extremas remontam ao reino de nossos ancestrais animalescos, englobando também o aspecto histórico do inconsciente. Se antes se pensava que a sombra humana representasse a fonte de todo mal, mais adiante se entendeu que ela não é apenas composta de tendências moralmente repreensíveis, mas também de certo número de boas qualidades, instintos normais, reações apropriadas, percepções realistas, impulsos criadores, etc. (ref.: C. G. Jung, “Memórias, Sonhos e Reflexões”-1963)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

76- Boicheiro, o boi de Cora Coralina


"Eu vi
o cheiro do boi.
Eu vi
cheiro de pasto
maduro, crestado, amarelado.

Eu vi chuva mansa chovendo
chuva fina caindo
Capim nascendo, gramando, repolhando.

Eu vi
lameiro de mangueira, repisado.
Cheiro de currais,
estercado, mijado.
Cheiro de saúde,
fecundo, estimulante"
("Evém Boiada" - Coralina, 1990, p. 137)

Mestra no uso poético de alusões sinestésicas, Cora Coralina  (1) um dia escreveu: "Lindo demais Coração é terra que ninguém vê". No seu poema "Evém Boiada", evoca cheiros, cores e imagens do coração do nosso interior,  lugar onde "habita" o boi. Cheiro de boi é perfume que vem do pasto, da fazenda de um tempo atrás, que ficou pra sempre presente na lembrança do que chamei de "Boicheiro". 
A persistência do cheiro de alguém, mesmo depois da sua partida, evoca uma idéia de continuidade. O cheiro simbolizaria assim a memória. Talvez tenha sido esse um dos sentidos do emprego do perfume em ritos funerários.
A presença sutil e, apesar disso, real do cheiro o assemelha simbolicamente a uma presença espiritual.  Sabemos como desde tempos ancestrais o perfume está associado aos mais diversos ritos. O homem tem usado o perfume agradável dos incensos como oferenda à Divindade entre os orientais, hebreus, gregos, romanos, egípcios, ameríndios e católicos. 
Em experiências sobre as imagens mentais os doutores Fretigny e Virel (2) demonstraram que os odores têm poder sobre o psiquismo, facilitando o aparecimento de imagens e de cenas significativas. Essas imagens, por sua vez, suscitam e orientam as emoções e os desejos.

Já dizia o poeta Carlos Drummond de Andrade (3) "assim é Cora Coralina...mulher extraordinária, diamante goiano cintilando na solidão"!

Notas:
(1) Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, nasceu em Goias no dia 20 de agosto de 1889, e morreu em e 10 de abril de 1985. Mulher simples, doceira de profissão, viveu longe dos grandes centros urbanos, alheia a modismos literários. Começou a escrever os seus primeiros textos aos 14 anos de idade, publicando-os nos jornais da cidade de Goiás. Casou em 1910 com o advogado e chefe de polícia Cantídio Tolentino de Figueiredo Bretas, com quem se mudou, no ano seguinte para o interior de São Paulo, onde viveu durante 45 anos.
Com a morte do marido, trabalhou vendendo livros, produzindo e vendendo lingüiça caseira e banha de porco, até  retornar em 1956  para Goiás. Ao completar 50 anos de idade, a poetisa relata ter passado por uma profunda transformação interior, a qual definiria mais tarde como "a perda do medo". Nessa fase, deixou de atender pelo nome de batismo e assumiu o pseudônimo que escolhera para si muitos anos atrás. Durante esses anos, Cora não deixou de escrever poemas relacionados com a sua história pessoal, com a cidade em que nascera e com o ambiente em que fora criada.
Seu primeiro livro "Poemas dos Becos de Goiás e estórias mais", foi publicado quando Cora contabilizava 75 anos. Reúne os poemas que consagraram o estilo da autora e a transformaram em uma das maiores poetisas de Língua Portuguesa do século XX. Em 1983, Cora Coralina recebeu o título de Doutor Honoris Causa da UFG, foi eleita intelectual do ano e contemplada com o Prêmio Juca Pato da União Brasileira dos Escritores. Sua casa na Cidade de Goiás foi transformada num museu em homenagem à sua história de vida e produção literária. (Ref: http://www.amulhernaliteratura.ufsc.br/artigo_suely.htm)
(2) Fonte:  Dicionário de Simbolos, J. Chevalier e A. Gheerbrant, 18a ed, Ed José Olympio.
(3) Veja Postagem 74 deste blog, "Boitempo, o boi de Carlos Drummond de Andrade".


terça-feira, 8 de maio de 2012

75- Boipaisagem, o boi de Ferreira Gullar


"Vai o animal no campo; ele é o campo como o capim, que é o campo se dando para que haja sempre boi e campo; que campo e boi é o boi andar no campo e comer do sempre novo chão. Vai o boi, árvore que muge, retalho da paisagem em caminho. Deita-se o boi, e rumina, e olha a erva a crescer em redor de seu corpo, para o seu corpo, que cresce para a erva. Levanta-se o boi, é o campo que se ergue em suas patas para andar sobre o seu dorso. E cada fato é já a fabricação de flores que se erguerão do pó dos ossos que a chuva lavará, quando for o tempo."(1) 
(Ferreira Gullar)

Ferreira Gullar nasceu em São Luís do Maranhão em 10 de setembro de 1930. 
Batizado José Ribamar Ferreira, decidiu mudar seu nome. Usou o Ferreira do pai e o Goulart francês da mãe virou Gullar. Disse ele: "Como a vida é inventada eu inventei o meu nome!".
Autodidata, começou a escrever poesia aos treze anos, dedicando-se mais tarde também ao estudo da crítica e história da arte. Publicou o primeiro dos seus mais de vinte livros ainda na terra natal, transferindo-se para o Rio de Janeiro em 1951, onde trabalhou em jornais e revista.
Participou do movimento de arte concreta (1955-57) sendo então um poeta extremamente inovador, escrevendo seus poemas, por exemplo, gravando-os em placas de madeira.
Em 1959, fundou  junto com outros poetas, críticos e artistas plásticos, tais como Lígia Clark e Hélio Oiticica, o movimento neo-concreto, que valorizava a expressão e a subjetividade em oposição ao concretismo ortodoxo.
No início dos anos 60, se afastou também deste grupo por concluir que o movimento levaria ao abandono do vínculo entre a palavra e a poesia. 
Dirigiu a FUNART, a Fundação Cultural de Brasilia e o IBAC. Foi presidente do Centro Popular da Cultura e um dos fundadores do Grupo Opinião, ajudando a organizar a resistência contra a ditadura militar. Foi preso em 68 e viveu no exílio a partir de 1971. (2) 
No poema Boitempo (3) Carlos Drummond de Andrade identifica o boi com o tempo, quando o tempo era o tempo do boi, e acompanhava os ponteiros da natureza. Seguindo o mesmo “caminho da roça” entitulei o boi de Ferreira Gullar de Boipaisagem. Mais que mimetizado, completamente identificado com a paisagem do campo, esse boi é o próprio campo. É boi da época anterior à pecuária industrial(4), em que os bois freqüentavam pastos e eram imagem integrada ao ciclo natural.


NOTAS
1) Fonte: Ferreira Gullar, "Toda Poesia"(1950/1980), SP, Círculo do Livro, 1983, parte 5, p.50.
2) Ferreira Gullar, "Nise da Silveira: uma psiquiatra rebelde", Perfis do Rio 10, RJ, 1996.
3) Ver postagem 74, de abril de 2012, Boitempo, o boi de Carlos Drummond de Andrade.
4) Ver postagens 73 e 73, de abril de 2012, O Boi Espermático - partes 1 e 2.

terça-feira, 17 de abril de 2012

74- Boitempo, o boi de Carlos Drummond de Andrade

   
 Cow Mario (1)      
“Entardece na roça de modo diferente. 
A sombra vem nos cascos, 
no mugido da vaca separada da cria. 
O gado é que anoitece 
e na luz que a vidraça da casa fazendeira 
derrama no curral 
surge multiplicada sua estátua de sal, 
escultura da noite. 
Os chifres delimitam 
o sono privativo de cada rês 
e tecem de curva em curva 
a ilha do sono universal. 
No gado é que dormimos 
e nele que acordamos. 
Amanhece na roça de modo diferente. 
A luz chega no leite, 
morno esguicho das tetas, 
e o dia é um pasto azul 
que o gado reconquista.”        
(Boitempo, Carlos Drummond de Andrade)

Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira MG, em 31 de outubro de 1902. De família de fazendeiros em decadência, estudou na cidade natal, em Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, de onde foi expulso por "insubordinação mental". Poeta, cronista, contista e tradutor, sua obra traz a visão de um individualista comprometido com a realidade social.
Excelente funcionário publico, trabalhou no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e se aposentou em 1962. Desde 1954 colaborou como cronista no Correio da Manhã e, a partir do início de 1969, no Jornal do Brasil. Alvo de admiração irrestrita, tanto pela obra quanto pelo seu comportamento como escritor, Carlos Drummond de Andrade morreu no Rio de Janeiro RJ, no dia 17 de agosto de 1987, poucos dias após a morte de sua filha única, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade.
Drummond foge da estrutura tradicional da linguagem literária quando inventa uma palavra composta "boitempo"para batizar seu poema memorialístico escrito em 1968 - um ano especialmente marcado por memórias trágicas, como as mortes de Martin Luther King, de Robert Kennedy, do estudante Edson Luis, dentre outras vozes de “insubordinação mental” que se manifestaram em todo mundo.  
Em Boitempo, o boi é a encarnação de um tempo perdido quando o tempo era o tempo do boi, da natureza. Materializa uma idade campestre que se perdeu, mas que continua viva na digestão lenta da linguagem poética. A roça é representada pelo boi, um animal calmo, que rumina indefinidamente os alimentos – simbolizando também a própria condição memorialística que não termina nunca de digerir suas recordações.
Boitempo também intitula o livro onde Drummond reúne poemas que tratam das recordações da infância, um momento em que o menino fez a passagem do mundo rural para o colégio interno.
Já dizia Drummond; “Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar". 
Cada um tem seu boi. Boitempo é o “boi” do poeta. E o seu? Como é o boi que habita em você?

NOTA:
1) Ver CowParade, postagem 50 deste blog, de agosto de 2011;
2) Agradecimento à Sonia Hirsch.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

73- A Arte do Boi Espermático - parte 2 de 3

Ate a década de 70, a manipulação genética na pecuária se resumia ao universo masculino. A partir dos anos 80,  iniciou-se a transferência de embriões das vacas escolhidas como geneticamente superiores para as chamadas "vacas de aluguel". No final dos anos 90, foi a vez da fertilização in vitro. Óvulos e espermatozóides passaram a se encontrar apenas em laboratórios e as vacas escolhidas passaram de dez para cem ou mais filhos.
A principal fonte de proteína animal do planeta ficou garantida, porém a pecuária bovina em escala industrial, devido ao processo digestivo de fermentação intestinal dos ruminantes, é reconhecida como uma importante fonte de emissão de gás metano - um potente gás de efeito estufa que contribui em 15% para o aquecimento global. As emissões globais de metano geradas a partir dos processos digestivos dos ruminantes são estimadas em 80 milhões de toneladas por ano, correspondendo a cerca de 22% das emissões totais de metano geradas pela ação do homem no meio ambiente.
A pecuária é uma das mais antigas profissões, mencionada na Bíblia, no Gênesis,  como a segunda tarefa dada por Deus a Adão: nomear e cuidar do Jardim do Éden e dos animais. Muito anterior à agricultura, derivou de aperfeiçoamentos da atividade dos caçadores-coletores, que já existiam há cerca de cem mil anos. Aprenderam a aprisionar os animais vivos para posterior abate e depois perceberam a possibilidade de administrar sua reprodução. Nos estágios iniciais da pecuária, o homem continuava nômade conduzindo os rebanhos em suas perambulações. Já não procurava mais a caça, mas sim novas pastagens para alimentar seu gado.
A primeira tarefa  dada por Deus a Adão: crescer e  multiplicar,  se aplicou não só à procriação humana na terra, mas também a dos bovinos, num processo que faz extrapolar e muito a seleção natural.
O touro tem servido de inspiração à criatividade humana nas artes, nas mitologias e agora também na tecnologia genética. Além de evocar a ideia do macho impetuoso, de irresistível força e arrebatamento o touro é símbolo ancestral da força criadora, cujo sêmen abundante fertiliza a terra.  É um símbolo lunar na medida em que se associa aos ritos de fecundidade e também solar pelo fogo de seu sangue e o brilho de seu sêmen .

(1) Fonte: Jean Chevalier & Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos , Ed. José Olympio, 18º ed.