(continuação da postagem 113)
José Alberto termina a leitura do último poema e retira-se. Quando volta, fala com rapidez sobre dinheiro, documentos... Desaparece novamente para voltar em seguida com duas flores lindas. São amarelas com o centro vermelho escuro, recém tiradas de alguma árvore próxima ao museu, conhecida pelo nome de algodão-da-praia. Oferece uma pra mim e outra pra uma colega, para então desaparecer novamente nos corredores do museu.
José Alberto termina a leitura do último poema e retira-se. Quando volta, fala com rapidez sobre dinheiro, documentos... Desaparece novamente para voltar em seguida com duas flores lindas. São amarelas com o centro vermelho escuro, recém tiradas de alguma árvore próxima ao museu, conhecida pelo nome de algodão-da-praia. Oferece uma pra mim e outra pra uma colega, para então desaparecer novamente nos corredores do museu.
Aquela flor
Como um pequeno raio de luz
Do sol
Por um momento
Um déjà vu...
Logo em
seguida, me vem à memória 1981, mais de 25 anos atrás...
Fui ver no
Paço Imperial a exposição Imagens do
Inconsciente, homônima do livro de Nise da Silveira que estava sendo
lançado. Eu não era ainda psicóloga, tinha uma outra profissão e fui por pura curiosidade.
Estavam ali
expostas obras dos pacientes psiquiátricos do período entre 1946 a 1974,
algumas dessas mesmas obras que eu agora revisitava no atelier do museu com meus
colegas da PUC.
Em 81 os loucos ficavam internados. A forma como se davam as
internações e o tipo de tratamento desumano a que eram submetidos refletiam, na visão de
Ferreira Gullar, uma forma da sociedade cada vez mais racionalista e pragmática
desembaraçar-se de um incômodo. Segundo ele "quanto mais a sociedade se
organizava, mais racionalizava seu funcionamento e suas relações de trabalho e
produção, menos espaço sobrava para os que não se ajustavam a essa organização". Hoje José Alberto, que se auto-intitula "o neto da Nise", mora em sua casa própria, ao lado do museu, que frequenta livremente.
Um dia, Nise
se negou a aceitar o convite feito pelo psiquiatra diretor do hospital para
acionar o botão que produziria o choque elétrico em um paciente, como também se
negaria a usar o choque insulínico e o cardiazol. Nesse momento uma revolução
se instalou no seu caminho e no caminho da psiquiatria brasileira. A partir daí
passou a dirigir a seção de Terapêutica Ocupacional do Hospital Pedro II, único
lugar onde esses procedimentos não eram utilizados.
Sem
possuir ainda uma teoria de Terapêutica Ocupacional, buscou no caminho
psicológico uma alternativa para o tratamento da esquizofrenia. Buscou meios de
expressão simbólica tendo criado além de oficinas de trabalho (costura,
encadernação, marcenaria...), ateliers de atividades expressivas como pintura e
modelagem.
Contrariando
os conceitos até então estabelecidos, as imagens pintadas ou modeladas pelos
pacientes psicóticos revelaram riquezas insuspeitadas mesmo após longos anos
de doença, foi o que Nise pôde perceber e relatar ao mundo.
Em 1954,
envia uma carta a Jung junto com algumas fotografias de mandalas produzidas
pelos pacientes. Em resposta, o mestre efetivamente as reconhece como
manifestações de forças do inconsciente que buscavam compensar a dissociação.
Via como um esforço para superar os conflitos profundos e uma possibilidade de reencontrar
um equilíbrio na relação com o mundo.
Nise descobre
na psicologia junguiana, especialmente no conceito de inconsciente coletivo e das
imagens arquetípicas, a chave para decifrar a leitura das obras produzidas
pelos esquizofrênicos. Em 1957, ela obtém uma bolsa para estudar no Instituto C. G. Jung, em Zurich, apresentando em seguida as obras do acervo no II Congresso Internacional de Psiquiatria.
Lança uma
nova alternativa às teorias da época, mostrando ser o afeto um caminho possível
de aproximação entre o mundo fechado do esquizofrênico e a realidade. Organiza
o material produzido demonstrando estar ali expresso algo possível de
significar a vida psíquica desses pacientes.
Um dos quadros da exposição Imagens do Inconsciente me chamou atenção especial. Continha a representação de uma outra flor muito semelhante aquela que Jose Alberto me ofereceu. Talvez possa até ter sido tirada da mesma árvore próxima ao museu. Quem vai saber? Carlos Pertuis, paciente da Dra Nise deu o nome a esse quadro de Planetário de Deus. Pintou no centro uma flor dourada, símbolo do sol e da divindade, uma mandala que se apoia sobre duas serpentes negras simétricas, símbolos da escuridão e do mal.
Fontes:
1) Gulllar, Ferreira Nise
da Silveira, uma psiquiatra rebelde. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1996.
2) Jung,
C.G. Memórias, sonhos e reflexões. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 1963.
3) Silveira, Nise. Imagens do Inconsciente. Rio de Janeiro:
Alhambra, 1981.
Marilene Séllos, via email:
ResponderExcluir"Nise, ao romper com o padrão de tratamento existente,
possibilita que os clientes expressem seu mundo interno, sua alma.
Quanta aprendizagem! com o seu caminhar."