quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

90 - O Batismo do Bumba-meu-boi

Foto 1
O ciclo tradicional do Bumba-meu-boi se inicia com os ensaios por volta do mês de maio. 
Nessa época o "couro" do boi, que na verdade é um veludo, já está sendo bordado e só pode ser visto pelas bordadeiras e bordadeiros. O novo "couro" bordado é então montado na armação de madeira em forma de touro. É um segredo guardado a sete chaves  até que o boi seja batizado e consagrado a São João. 
Os ensaios continuam até 13 de junho, dia de Santo Antonio.
No dia 23 de junho, véspera do dia de São João,  o boi é batizado. De início ele é colocado coberto, de frente para um altar povoado com santos católicos (foto 1) até o momento de ser descoberto e mostrado a todos (foto 2)
Foto 2
O ritual do batizado (1), que marca o renascimento do bumba-m eu-boi, é  iniciado por rezas que lembram ladainhas, algumas em latim, geralmente entoadas pelas mulheres. O boi recebe então um acréscimo ao nome original que vai estar bordado no “couro”. No batizado das fotos, realizado em 2012, o Boi da Floresta recebeu o acréscimo de Paz do Brasil.
Daí o festejo “pega fogo”.  Um novo ritmo se inicia marcado pelas matracas e pelos pandeirões. A batida têm influência notadamente africana e o jeito de dançar é tal qual dos índios brasileiros. 
A religiosidade está presente todo o tempo na brincadeira do bumba-meu-boi.
Para seus praticantes, esse ritual tem um sentido de proteção e renovação.
Na sua forma de expressão e no conteúdo do auto do bumba-meu-boi (2) vão estar presentes influências artísticas e personagens das três raças, raízes do povo brasileiro.

NOTAS:
1) A palavra batismo ficou conhecida na nossa cultura relacionada a atividade de São João Batista no deserto, no Rio Jordão, na qual usava a  imersão na água simbolizando a purificação e a renovação entre aqueles que aguardavam pelo Messias. Etimologicamente BATISMO vem do latim BAPTISMUS, que, por sua vez, vem do grego BAPTIZEIN, significando "banhar", "emergir". Outras formas de batismo foram praticadas em outras religiões associadas aos ritos de passagem, especialmente de nascimento e morte. O batismo pode ser feito usando outros elementos além da água, como  o sangue, o óleo, o fogo e outros. 

2) Na  postagem 92, o auto e a morte do boi,  os outros momentos que completam o ciclo do bumba-meu-boi.
3) Mais sobre o Bumba-meu-boi, neste blog, postagens 28 e 29: "O Boi na Arte Popular", de março de 2011.
4) Agradecimento especial à Juliana Manhães.
5) Fotos 1 e 2 do Batismo do Boi da Floresta Paz do Brasil, de Julia Andrade, São Luiz - Ma.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

88- O Boi e o Menino Vietnamita






O boi e, ainda mais, o búfalo, preciosos auxiliares do homem, são respeitados em toda Ásia oriental. Servem de montaria aos sábios. Particularmente serviu a Lao-Tsé, em sua viagem às fronteiras do oeste. 
Na atitude desses animais existe um aspecto de doçura e de desapego que evoca a contemplação.
Entre as populações montanhesas do Vietnã, para as quais o sacrifício do búfalo é um ato religioso essencial, esse animal é respeitado como um ser humano. Sua morte através de um rito sacrificial, transforma-o no enviado, no intercessor da comunidade junto aos Espíritos superiores. 
O menino da foto vive numa aldeia remota no norte do Vietnã. Ele fica sozinho, brincando com o boi, enquanto seus pais trabalham no plantio de arroz. 
Na primeira foto ele contempla o boi no centro de um lago redondo, que remete à imagem de uma mandala, palavra sânscrita que significa círculo. C. G. Jung recorre à mandala para designar uma representação simbólica da psique, cuja essência nos é desconhecida. Ele observou ainda que essas imagens são usadas para consolidar o ser interior ou para favorecer a meditação em profundidade.
 Na segunda foto, enquanto o boi caminha pelo pasto, o menino repousa sobre seu dorso totalmente sereno. Tem a cabeça na direção da cauda do animal fazendo na forma Menino-Boi uma alusão ao Yin-Yang, símbolo taoísta da harmonia e balanço entre opostos. 

FONTES:
1)
 Jean Chevalier & Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos, José Olympio, 18ºed.

2) Essas e outras fotos: http://www.funzug.com/index.php/miscellaneous/the-boy-and-the-bull.html#1FVY6MOkVgJEZm0s.99

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

87- O boi e o Bodhisattiva


Bodhisattiva em sânscrito significa “aquele cujo espírito é desperto e age com coragem”. O bodhisattiva é alguém que venceu o ego e é movido pela compaixão por todos os seres. 
Na tradição budista, recitar o mantra OM  MANI  PADME  HUM serve como proteção da mente contra a confusão que leva a uma apropriação da energia de maneira egocêntrica. 
...e todas as ações, sons e pensamentos impuros se transmutam em aspectos puros correspondentes. (Kalu Rimpoche)


OM  MANI  PADME  HUM

Que 2013 traga  Paz e Felicidade para Todos os Seres

domingo, 16 de dezembro de 2012

86- O Bezerro de Ouro Bíblico


Adoração do bezerro de ouro, por Nicolas Poussin (1594-1665)

O Bezerro de Ouro é o ídolo que de acordo com a tradição judaico-cristã, foi criado por Aaron quando Moisés havia subido o Monte Sinai para receber os mandamentos do Deus do povo de Israel. A demora de quarenta dias e quarenta noites fez com que os israelitas que o esperavam temessem terem sido abandonados.
Forçaram então Aaron a criar um ídolo que os conduzissem de volta ao Egito, onde haviam sido escravos. Aaron coleta entre o povo seus brincos de ouro. Derrete o ouro e constrói a estátua de um touro jovem  que já no dia seguinte passa a receber celebrações e oferendas.
A atitude de adoração à estatua do bezerro gera raiva em Moisés que quebra as tábuas de pedra com as leis de Deus e queima o Bezerro de Ouro. Espalha o pó sobre a água e força os israelitas a beberem. Volta ao Monte Sinai para receber uma nova inscrição na pedra com os Dez Mandamentos. Chama então para si aqueles que estivessem dispostos a seguir a Torá.
O episódio,  mencionada pela primeira vez em Êxodo 32:4, é conhecido como "O Pecado do Bezerro". Acredita-se que os hebreus reviveram no deserto a adoração ao touro num processo de assimilação e sincretismo, já que no Egito, de onde tinham vindo recentemente, o Touro Apis era idolatrado como uma representação divina.
O bezerro de ouro também é referido em outra passagem da Bíblia: no livro de I Reis 12, quando o reino de Israel é dividido e o rei Jeroboão, que fica com uma parte do reino sem ser de descendência real, cria dois bezerros para o povo adorar, e esquecer do Deus da sua tradição original.

Na linguagem corrente, a expressão "bezerro de ouro" tornou-se sinônimo de um falso ídolo, ou de um falso deus.
Você já se viu fabricando"bezerros de ouro" em tempos de deserto interior? 

sábado, 17 de novembro de 2012

85- O Bezerro de Ouro Contemporâneo


Com o nome sugestivo "The Golden Calf", o Bezerro de Ouro (FOTO), é um bezerro de 20toneladas com cascos e chifres de ouro de 18quilates, que o artista britânico Damien Hirst colocou à venda na casa de leilões Soththeby's, de Londres, em 2008.
Foi o trabalho que alcançou valor mais alto no leilão! Seu autor além de conquistar fama e enorme frisson em torno de si, soube como furar alguns fundamentos do mercado. A venda do Bezerro de Ouro foi uma jogada inédita em que Hirst driblou marchands e galeristas, negociando diretamente com os colecionadores.
Esse episódio no campo das artes faz refletir sobre o valor das coisas.

Em 1927, o físico alemão Werner Heisenberg propôs um conceito que modificou a forma científica de enxergar o mundo: o principio da incerteza. Esse princípio, que é ate hoje um dos pilares da física quântica, diz que a presença do observador altera o fenômeno. A natureza das coisas não teria uma existência intrínseca, mas sim interdependente, isto é, a experiência é alterada pela presença mutua do sujeito e do objeto. Ou seja, a experiencia do belo, por exemplo, é influenciada tanto pela obra quanto pelos olhos de quem vê. É portanto uma experiência única. E quando o que é dito belo vem de fora dessa experiência?
É comum ouvir dizer que a essência do que se faz na arte não depende da opinião alheia. O artista mais evoluído seria aquele que se libertou das coisa terrenas e se entregou plenamente a busca da sua arte. No entanto, talvez seja a profissão de artista aquela que mais dependa da opinião dos outros para sobreviver e a que é capaz de arrebatar os mais altos investimentos. A arte pode nos levar a um êxtase que não tem preço?
João Cabral de Mello Neto diz em seu ensaio "Composição x  Inspiração", de 1952, que nos tempos clássicos uma obra de arte era julgada boa quando cumpria seu papel de satisfazer o gosto das pessoas, que era construído ao longo do tempo. 

Muita coisa mudou desde então. Julgar o valor artístico e material de uma determinada obra, tornou-se uma tarefa cada vez mais distante do senso comum. Quem manda hoje no mercado das artes, tremendamente impulsionado pelo surgimento da nova classe social global dos bilionários, decidindo o que é bom ou não, são os especialistas.
A sensação que se tem  é de pisar em ovos (diga-se de passagem) que não são de ouro, num momento em que "celebridades" são produzidas em série, surgindo e desaparecendo em toda parte de uma hora para outra.
O valor do "Bezerro de Ouro", de Damien Hirst, transcende o valor da obra propriamente dita, quando traz à tona a fome de ídolos presente na ancestralidade humana.  

Outras reflexões sobre o tema,  na próxima postagem: "O Bezerro de Ouro Bíblico".

NOTAS:
Fontes: Lahoz André ; 2/2011 www. Bravoline.com.Br; Chacal, Ricardo; "Histórias à Margem"

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

84- O minotauro dos trópicos, o boi de Ricardo Chacal


Quando leio as histórias contadas por Ricardo Chacal (1) em seu livro "Uma história à margem", a sensação que me dá é de que elas se passaram no centro do furacão dos acontecimentos daqueles anos. O termo "à margem" se justifica  porque elas foram movidas por um poder paralelo,  marginal em relação ao padronizado. Foram  histórias escritas na roda viva da vida  pela força bovina da imaginação de alguns poetas teimosos, remadores dionisíacos da contra-corrente.
O Minotauro (2) ressurgiu assim nos trópicos graças a Chacal, em agosto de 1999, como símbolo máximo do CEP 20.000, também chamado Centro de Experimentação Poética.  Acontecimento gerador de um verdadeiro movimento cultural no Rio  de Janeiro, mesclava várias gerações e tipos de linguagem, nas mais variadas experiências plásticas, poéticas e musicais.
O CEP 20.000 comemorava nove anos com nove noites de festa na  Casa França Brasil. O espaço da exposição, um labirinto montado no centro da imensa sala, foi dividido de última hora com a exposição de Jorge Luis Borges, vinda de São Paulo.
Inspirado pelo "grande escritor das sendas do imaginário" Chacal foi  às Casas Turuna, onde adquiriu a cabeçorra taurina de papier marchê. A cada sessão era anunciada a fera e o  Minotauro-Chacal saia do labirinto, assustando adultos e crianças! Foi o início de sete anos de muitos espetáculos em vários outros  palcos, "impérios da fantasia, da poesia e do imaginário".
O papier machê foi se desfazendo com o uso até que foi hora de acabar. E acabou no Carnaval!  O fim do bisão mitológico aqui no Brasil, se deu " na grande festa da paixão e do batuque".
O ritual aconteceu em 2006,  no Baixo Gavea, bairro onde Chacal nasceu e viveu várias vidas. Ao som da banda "Me beija que eu sou cineasta", a besta foi cremada. Virou fumaça que encheu de lágrimas os olhos dos músicos e  foliões que passavam.
"O Minotauro está morto! Viva o Minotauro!"

NOTA:
1) Mais sobre Ricardo Chacal ver postagem 83, "O ano do Boi nos palcos do Rio", deste blog.
2) Mais sobre o Minotauro ver postagens: 36, "O Boi na Grécia (parte 2 de 11), O mito do Minotauro; 37, "O Boi na Grécia (parte 3 de 11), O Minotauro e a Máscara do Touro" e 39, "O Boi na Grécia (parte 4 de 11), O Minotauro e a Coroa de Ariadne", deste blog.