quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

87- O boi e o Bodhisattiva


Bodhisattiva em sânscrito significa “aquele cujo espírito é desperto e age com coragem”. O bodhisattiva é alguém que venceu o ego e é movido pela compaixão por todos os seres. 
Na tradição budista, recitar o mantra OM  MANI  PADME  HUM serve como proteção da mente contra a confusão que leva a uma apropriação da energia de maneira egocêntrica. 
...e todas as ações, sons e pensamentos impuros se transmutam em aspectos puros correspondentes. (Kalu Rimpoche)


OM  MANI  PADME  HUM

Que 2013 traga  Paz e Felicidade para Todos os Seres

domingo, 16 de dezembro de 2012

86- O Bezerro de Ouro Bíblico


Adoração do bezerro de ouro, por Nicolas Poussin (1594-1665)

O Bezerro de Ouro é o ídolo que de acordo com a tradição judaico-cristã, foi criado por Aaron quando Moisés havia subido o Monte Sinai para receber os mandamentos do Deus do povo de Israel. A demora de quarenta dias e quarenta noites fez com que os israelitas que o esperavam temessem terem sido abandonados.
Forçaram então Aaron a criar um ídolo que os conduzissem de volta ao Egito, onde haviam sido escravos. Aaron coleta entre o povo seus brincos de ouro. Derrete o ouro e constrói a estátua de um touro jovem  que já no dia seguinte passa a receber celebrações e oferendas.
A atitude de adoração à estatua do bezerro gera raiva em Moisés que quebra as tábuas de pedra com as leis de Deus e queima o Bezerro de Ouro. Espalha o pó sobre a água e força os israelitas a beberem. Volta ao Monte Sinai para receber uma nova inscrição na pedra com os Dez Mandamentos. Chama então para si aqueles que estivessem dispostos a seguir a Torá.
O episódio,  mencionada pela primeira vez em Êxodo 32:4, é conhecido como "O Pecado do Bezerro". Acredita-se que os hebreus reviveram no deserto a adoração ao touro num processo de assimilação e sincretismo, já que no Egito, de onde tinham vindo recentemente, o Touro Apis era idolatrado como uma representação divina.
O bezerro de ouro também é referido em outra passagem da Bíblia: no livro de I Reis 12, quando o reino de Israel é dividido e o rei Jeroboão, que fica com uma parte do reino sem ser de descendência real, cria dois bezerros para o povo adorar, e esquecer do Deus da sua tradição original.

Na linguagem corrente, a expressão "bezerro de ouro" tornou-se sinônimo de um falso ídolo, ou de um falso deus.
Você já se viu fabricando"bezerros de ouro" em tempos de deserto interior? 

sábado, 17 de novembro de 2012

85- O Bezerro de Ouro Contemporâneo


Com o nome sugestivo "The Golden Calf", o Bezerro de Ouro (FOTO), é um bezerro de 20toneladas com cascos e chifres de ouro de 18quilates, que o artista britânico Damien Hirst colocou à venda na casa de leilões Soththeby's, de Londres, em 2008.
Foi o trabalho que alcançou valor mais alto no leilão! Seu autor além de conquistar fama e enorme frisson em torno de si, soube como furar alguns fundamentos do mercado. A venda do Bezerro de Ouro foi uma jogada inédita em que Hirst driblou marchands e galeristas, negociando diretamente com os colecionadores.
Esse episódio no campo das artes faz refletir sobre o valor das coisas.

Em 1927, o físico alemão Werner Heisenberg propôs um conceito que modificou a forma científica de enxergar o mundo: o principio da incerteza. Esse princípio, que é ate hoje um dos pilares da física quântica, diz que a presença do observador altera o fenômeno. A natureza das coisas não teria uma existência intrínseca, mas sim interdependente, isto é, a experiência é alterada pela presença mutua do sujeito e do objeto. Ou seja, a experiencia do belo, por exemplo, é influenciada tanto pela obra quanto pelos olhos de quem vê. É portanto uma experiência única. E quando o que é dito belo vem de fora dessa experiência?
É comum ouvir dizer que a essência do que se faz na arte não depende da opinião alheia. O artista mais evoluído seria aquele que se libertou das coisa terrenas e se entregou plenamente a busca da sua arte. No entanto, talvez seja a profissão de artista aquela que mais dependa da opinião dos outros para sobreviver e a que é capaz de arrebatar os mais altos investimentos. A arte pode nos levar a um êxtase que não tem preço?
João Cabral de Mello Neto diz em seu ensaio "Composição x  Inspiração", de 1952, que nos tempos clássicos uma obra de arte era julgada boa quando cumpria seu papel de satisfazer o gosto das pessoas, que era construído ao longo do tempo. 

Muita coisa mudou desde então. Julgar o valor artístico e material de uma determinada obra, tornou-se uma tarefa cada vez mais distante do senso comum. Quem manda hoje no mercado das artes, tremendamente impulsionado pelo surgimento da nova classe social global dos bilionários, decidindo o que é bom ou não, são os especialistas.
A sensação que se tem  é de pisar em ovos (diga-se de passagem) que não são de ouro, num momento em que "celebridades" são produzidas em série, surgindo e desaparecendo em toda parte de uma hora para outra.
O valor do "Bezerro de Ouro", de Damien Hirst, transcende o valor da obra propriamente dita, quando traz à tona a fome de ídolos presente na ancestralidade humana.  

Outras reflexões sobre o tema,  na próxima postagem: "O Bezerro de Ouro Bíblico".

NOTAS:
Fontes: Lahoz André ; 2/2011 www. Bravoline.com.Br; Chacal, Ricardo; "Histórias à Margem"

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

84- O minotauro dos trópicos, o boi de Ricardo Chacal


Quando leio as histórias contadas por Ricardo Chacal (1) em seu livro "Uma história à margem", a sensação que me dá é de que elas se passaram no centro do furacão dos acontecimentos daqueles anos. O termo "à margem" se justifica  porque elas foram movidas por um poder paralelo,  marginal em relação ao padronizado. Foram  histórias escritas na roda viva da vida  pela força bovina da imaginação de alguns poetas teimosos, remadores dionisíacos da contra-corrente.
O Minotauro (2) ressurgiu assim nos trópicos graças a Chacal, em agosto de 1999, como símbolo máximo do CEP 20.000, também chamado Centro de Experimentação Poética.  Acontecimento gerador de um verdadeiro movimento cultural no Rio  de Janeiro, mesclava várias gerações e tipos de linguagem, nas mais variadas experiências plásticas, poéticas e musicais.
O CEP 20.000 comemorava nove anos com nove noites de festa na  Casa França Brasil. O espaço da exposição, um labirinto montado no centro da imensa sala, foi dividido de última hora com a exposição de Jorge Luis Borges, vinda de São Paulo.
Inspirado pelo "grande escritor das sendas do imaginário" Chacal foi  às Casas Turuna, onde adquiriu a cabeçorra taurina de papier marchê. A cada sessão era anunciada a fera e o  Minotauro-Chacal saia do labirinto, assustando adultos e crianças! Foi o início de sete anos de muitos espetáculos em vários outros  palcos, "impérios da fantasia, da poesia e do imaginário".
O papier machê foi se desfazendo com o uso até que foi hora de acabar. E acabou no Carnaval!  O fim do bisão mitológico aqui no Brasil, se deu " na grande festa da paixão e do batuque".
O ritual aconteceu em 2006,  no Baixo Gavea, bairro onde Chacal nasceu e viveu várias vidas. Ao som da banda "Me beija que eu sou cineasta", a besta foi cremada. Virou fumaça que encheu de lágrimas os olhos dos músicos e  foliões que passavam.
"O Minotauro está morto! Viva o Minotauro!"

NOTA:
1) Mais sobre Ricardo Chacal ver postagem 83, "O ano do Boi nos palcos do Rio", deste blog.
2) Mais sobre o Minotauro ver postagens: 36, "O Boi na Grécia (parte 2 de 11), O mito do Minotauro; 37, "O Boi na Grécia (parte 3 de 11), O Minotauro e a Máscara do Touro" e 39, "O Boi na Grécia (parte 4 de 11), O Minotauro e a Coroa de Ariadne", deste blog.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

83- O ano do Boi nos palcos do Rio


Quero compartilhar três verdadeiras epifanias.
A mais recente, foi quando assisti no Teatro Ségio Porto, a peça autobiográfica “Uma história à margem”, de Ricardo de Carvalho Duarte, o Chacal. Fiquei sabendo por que uma amiga me enviou uma foto da peça. Era o Chacal vestido com uma máscara de boi. Um minotauro urbano do século XXI! A amiga lembrou de mim, é claro. Boi-Julia, uma associação fácil de entender. Chacal conta suas histórias, na verdade incorpora as histórias - ágil, feliz, poético.
Baseada no livro autobiográfico de mesmo nome, tem a memória como fio condutor e oferece um testemunho da trajetória do autor, que inclui, além da poesia, criações ligadas à música e ao teatro experimental. É um importante registro da produção cultural do país, trazendo relatos sobre os mais emblemáticos movimentos culturais cariocas das últimas décadas, como a gênese de grupos emblemáticos como "Asdrúbal Trouxe o Trombone" e "Nuvem Cigana", recorda os áureos tempos do "Circo Voador", conta detalhes dos bastidores da "Blitz", do "movimento de performance" dos anos 90, até a criação do "CEP 20.000", o "Centro de Experimentação Poética", que já comemorou vinte anos de atividade.
Nascido no Rio de Janeiro, em 1951, Chacal é músico, letrista e poeta. Artista eclético, colabora em antologias, revistas impressas e eletrônicas, em performances, como autor e editor de livros, cronista, etc. É contemporâneo da "geração mimeógrafo" e integrante do movimento de poesia marginal do país, a partir dos anos 70. O Minotauro é uma das múltiplas facetas de Chacal, apresentada em “Uma história à margem”. 


A segunda ocorreu quando, igualmente levada pela informação de outro amigo que fez a associação de boi com Julia (!), fui ao teatro do CCBB, no Cena Brasil Internacional, assistir a peça "Boi". Com texto original de Miguel Jorge e direção de Hugo Rodas, tem Guido Campos atuando nos diversos papéis, diga-se de passagem, de forma visceral. A peça conta a história de Zé Argemiro, que tem como brincadeira favorita de menino de roça, montar na garupa do boi Dourado. Quando adulto, Argemiro prefere a companhia dos bois com os quais conversa com grande intimidade. Um dia se casa com Das Dores, que enciumada, ameaça matar o boi desencadeando em Argemiro uma reação inesperada.


Já na peça "Travessia" foi por um mero acaso, ou talvez por pura sincronicidade, que me deparei mais uma vez com o boi no centro do palco do Teatro Princesa IsabelBaseada nos contos de "Sagarana"(1) e "Primeiras Histórias"de Guimarães Rosa"Travessia"conta com a direção e interpretação de Paulo Williams, do Grupo Tecelagem. O grupo, natural de Jacareí e desde 2011 em São Paulo, tem como ponto de partida para várias de suas produções os estudos de transposição da literatura. Alem de "Travessia", fazem parte do seu repertório, "Velho Mar" da obra de Hemingway, "Monóculo" da obra de Marguerite Duras e de Gaston Bachelard, entre outrasO espetáculo aborda a experiência de um vaqueiro que parte levando uma boiada pelo sertão. No meio da travessia vai contando suas estórias, seus medos, suas dores, seus amores ao som de violeiros, numa montagem simples e muito criativa.

NOTA:
(1) Veja postagem 77 "Bois que sonham e conversam", de Guimarães Rosa deste blog.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

82- O Hakomi, a Garça e o Boi-Parte 2 de 2


Meditando no Salar de Atacama diante dos flamingos (1)
Hakomi  é uma palavra do idioma dos índios americanos Hopi, que literalmente significa: "como você se posiciona em relação aos muitos reinos da existência?" Ou, na tradução mais moderna: "quem é você?”
Como se chega  lá? No método Hakomi, segundo seu criador Ron Kurtz, é fazendo a outra pessoa se sentir segura, é tendo um respeito ativo e profundo e compaixão por todos os seres.  Nas palavras da Mukara (2), é promovendo um campo amoroso, de acolhimento a todas nossas partes.
O símbolo usado no logotipo do Hakomi é o da garça.  Não  encontrei nos livros as razões que levaram a essa escolha. Por achar importante a linguagem oculta nos símbolos, faço uma pesquisa dedutiva.
Genericamente o arquétipo do animal se relaciona às camadas profundas do inconsciente e do instinto. Os pássaros, por sua vez, porque voam, servem de símbolo às relações entre o céu e a terra.
Mais especificamente a garça, por sua atitude imóvel e solitária, equilibrada num pé só como que mimetizando um arbusto, evoca naturalmente a contemplação. Essa ave pernalta fica ali 100% presente, ao mesmo tempo paciente e pronta para alçar vôo ou para ciscar seu alimento.  É a  imagem  perfeita do estado de Atenção Plena, a atitude de observação sem julgamento, o princípio básico do Hakomi.
No ocultismo antigo, por causa do seu bico fino e penetrante a garça passava por símbolo da ciência  divina. É a fênix, o pássaro mítico de origem etíope de extraordinária longevidade que na tradição cristã representa o triunfo da vida sobre a morte.
Também é, nas tradições européias e africanas, o investigador, "aquele que mete o nariz (o bico) em tudo"!
Por serem serpentárias,  essas aves também são tidas como adversárias do mal, um animal antisatânico como a íbis, símbolo de Cristo.
No Egito, era uma representação de Tot, personificação  da sabedoria e a fênix, a personificação do mito solar e da ressurreição.
Já a garça real, a cegonha, é  símbolo da compaixão filial, pois se dizia que alimentava os pais velhos.  Até hoje existe o mito de que a cegonha trás o bebê no bico, uma imagem poética que sugere que é esta ave migradora a mensageira da renovação da vida que vem do espaço infinito.
Na tradição chinesa, há quem lhe atribua pelo simples olhar, o poder da concepção.
No Japão, a garça aparece como o "tsuru", símbolo da imortalidade e da paz.
A garça é um animal cosmopolita. Está presente nos mundos velho e novo, ativando o imaginário do homem desde tempos remotos.
A riqueza existente nos simbolismos da garça talvez possa dar a dimensão vasta para onde o Hakomi, essa palavra-pergunta: “quem é você?”, pode nos levar.

NOTAS:
1) O Salar de Atacama é uma salina no Chile. Local de paisagens deslumbrantes, se localiza a 55 km ao sul da cidade de San Pedro de Atacama, no Deserto de Atacama, na região de Antofagasta. É cercado por montanhas 
numa altitude de 2.300 m do nível do mar e não tem saídas para drenagem de água. Algumas áreas da salina fazem parte da reserva ecológica Los Flamencos, que recebeu este nome por concentrar grandes populações de espécies de flamingos. Os flamingos já foram considerados da família do grupo Ciconiformes ao qual pertencem as garças, porém atualmente são classificados numa ordem à parte (Phoenicopteriformes), por diferença no bico.
2) Mais sobre o Hakomi e Mukara Meredith, ver postagens 80 e 81, deste blog.
3) Fontes:
    Chevalier, Jean & Gheebrant, Alain; Dicionário de Símbolos; José Olympio Ed.; 18a edição.
    Kurtz, Ron; Body-Centered Psychotherapy, The Hakomi Method; LifeRhythm; CA-1990.
    Sick, Helmut; Ornitologia Brasileira; Ed. Nova Fronteira; RJ-2001.


terça-feira, 4 de setembro de 2012

81-O Hakomi, a Garça e o Boi - Parte 1 de 2



Garça Vaqueira e o Búfalo (1)
O encontro com a Dra Nise da Silveira em 1989,  no evento pela queda da Farra do Boi (2) foi um marco importante, que norteou minha vida para novos horizontes. Foi um espaço catalisador do meu  processo de individuação que ainda hoje me influencia.  Inspirou o nome do  blog:  "Oficinas de Individuação" e  a pesquisa que passei a desenvolver e a postar sobre as mitologias do boi.
Nesse mês de setembro em que  o blog faz dois anos com mais de 22 000 visitas (!),  ainda há muito que dizer (e sera dito mais adiante) sobre a presença do boi no imaginário do homem desde as cavernas (3) até a contemporaneidade (4). Mas um outro marco importante pede licença: o encontro que tive em 1991/92, em Boulder, nos Estados Unidos, com o método Hakomi, através de Pat Ogden e  Mukara Meredith (5).
Naquela ocasião, além de professora Mukara foi também minha terapeuta do Hakomi, mas acima de tudo,  foi uma pessoa que acreditou em mim e facilitou minha inclusão naquele universo.
20 anos depois, revejo Mukara no Brasil, onde é um nome que desperta interesse entre aqueles que já ouviram falar do seu trabalho autoral MatrixWorks como uma referencia original e transformadora, capaz de promover o  "caos criativo" a partir do olhar para os grupos como organismos vivos.
Segundo Mukara, muito do MatrixWorks se inspirou no Hakomi, que ela está trazendo agora em setembro para o Rio de Janeiro, pela primeira vez em todo Brasil.
O tema básico nos dois métodos é inclusão-conexão-integração de todas as partes,  o caminho para a totalidade do ser, na linguagem de C. G. Jung.
No MatrixWorks as partes a se integrar são os membros do grupo.  No Hakomi são nossos eus, como nossa criança ferida, nosso velho sábio... que ficam  muitas vezes na sombra, rejeitados, atrapalhando nossos relacionamentos.
Se antes se pensava que a sombra humana representasse a fonte de todo mal, hoje se sabe que ela também se compõe de boas qualidades, instintos normais, reações apropriadas, percepções realistas, impulsos criadores, etc.

A garça é o símbolo do Hakomi. Saiba porque na próxima postagem desse blog.

NOTAS:
1) A garça vaqueira, bubulcus ibis, foi registrada há relativamente poucos anos no Brasil. São encontradas na ILha de Marajó associadas ao búfalo sobre os quais pousa tal como faz na África com o hipopótamo e os elefantes.
2) Ver neste blog, postagens de 1, 3 e 7: "Dra Nise X A Farra do Boi";
3) Ver postagem 21  22: "O Boi e a Arte - na arte rupestre";
4) Ver postagens 58: "Socorro, querem capar o touro da Wall Street!" e 61: "Dra Nise na CowParade";
5) Mais sobre o Hakomi e Mukara Meredith, ver postagem 80.