domingo, 9 de junho de 2013

96- Sebastião Salgado - Fascínio da Imagem (parte 2)


(continuação da postagem 95)


Como foi a redescoberta?

(Sebastião Salgado) Lélia e eu paramos e fomos para Porto Seguro. Coincidentemente, foi o momento em que meus pais estavam ficando velhinhos, e nos passaram uma fazenda em Minas Gerais. Pensamos até em ser fazendeiros, abandonar a fotografia. Mas, quando vi aquela terra, ela não era mais o paraíso com 50% de cobertura de florestas de quando eu era criança, mas só com 0,3% de cobertura florestal. Na minha região inteira, tudo estava destruído. Eu estava meio morto, e aquela terra estava meio morta, apesar de sua qualidade maravilhosa. A Lélia então teve uma ideia maravilhosa. Ela me disse: "Você sempre me disse que cresceu em um paraíso. Por que não replantamos a floresta nativa que havia aqui?". Foi construindo esse projeto que veio a ideia de fotografar o planeta. Eu nunca tinha fotografado paisagens, nem outros animais. Foi fantástico.

Mas para isso você teve de sair da zona de conforto e se lançar no desconhecido.

(Sebastião Salgado) Sim, mas o conforto é relativo. Eu trabalhei dentro do projeto Genesis com grupos que ainda vivem como há 3 mil, 10 mil, 50 mil anos. E posso dizer que eles vivem de uma forma hiper confortável. Não têm a sofisticação de consumo de produtos que nós temos, mas eles têm um conceito que nós perdemos: o essencial. Eles vivem de uma maneira fantástica, com o mesmo sentido de comunidade e de solidariedade que nós temos.

E você teve de viver assim também durante o projeto.

(Sebastião Salgado) Fazendo esse projeto, voltei a viver como vivíamos há cinco mil anos, em uma barraca, caminhando… Fiz caminhadas incríveis, como no norte da Etiópia, por exemplo. Foram 55 dias caminhando, fazendo 850 quilômetros a pé, pelas montanhas, porque não tem estrada. A Lélia veio a 350 quilômetros do fim e fomos embora. Qualquer um pode fazer. Não é um desconforto. É maravilhoso.

Você disse em uma de suas entrevistas que se reencontrou como animal.

(Sebastião Salgado) Sim, sou um animal e me reencontrei com minha espécie. Lembro de quando fotografei uma iguana em Galápagos e me dei conta de que ela era uma miniatura de um dinossauro. Estava ali em frente à mim. Quando fotografei aquela pata, foquei minha teleobjetiva macro e me senti como se estivesse fotografando a mão de um guerreiro da Idade Média, com aquelas escamas de metal protegendo-o para a luta. Todos os movimentos musculares, as veias, os cinco dedos, tudo estava ali representado. Se aceitamos a Teoria da Evolução de Darwin, sabemos que viemos todos da mesma célula de base e evoluímos em trajetórias diferentes, em função dos ecossistemas em que vivemos. Na verdade, entendi que o que nos contaram a vida inteira, que éramos a única espécie racional, é uma enorme pretensão da nossa espécie. Todas são racionais. Mas é preciso entrar na sua lógica para compreender a racionalidade de cada espécie.

Genesis lhe fez filosofar sobre a vida também?

(Sebastião Salgado) Filosofar, não. Mas me fez voltar à essência e sair com muita paz desse projeto.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

95- Sebastião Salgado - Fascínio da Imagem (parte 1)


( Projeto Genesis incentivou Sebastião Salgado a retornar à fotografia e a trocar a depressão pelo otimismo.
ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS - O Estado de S.Paulo )


Sebastião Salgado construiu sua carreira como um dos mais aclamados fotógrafos da história registrando o homem, as questões sociais, a industrialização, a economia, a imigração, a vida e a morte das guerras. Um desses projetos, Êxodos, lançado em 2000, é o best-seller que encarna seu fascínio pelo humano ordinário em fuga - o trânsito dos refugiados. Ao término desse projeto, que marcou sua biografia, o fotógrafo brasileiro radicado em Paris estava morrendo.
Como as populações que viu agonizarem em Ruanda, como os milhares de cadáveres que viu serem empilhados por retroescavadeiras, seu corpo também se deteriorava. Mergulhado na depressão e na descrença profunda na humanidade, Salgado decidiu parar de fotografar.
Para curar sua alma, refugiou-se no Brasil. Lá, junto do pai e da mulher, a designer Lélia Wanick Salgado, descobriu que a degradação não era apenas do ser humano, mas também do ambiente. O paraíso no qual tinha passado a infância estava sendo arrasado. Diante do desafio de reconstruir o ecossistema que trazia na memória, lançou-se a um projeto de reflorestamento e preservação ambiental.
O contato com a terra, então, lhe devolveu o contato com a Terra. E daí nasceu Genesis, um projeto fotográfico ambicioso e milionário (de € 8 milhões), dividido em oito anos e em 32 reportagens, verdadeiras expedições a ecossistemas, paisagens e povos intocados pelo progresso.
Lançada em Londres em 9 de abril, a primeira edição de Genesis, de 50 mil exemplares escritos em seis línguas, esgotou-se em 20 dias. Outra edição já foi encomendada e vai ficar pronta até o final deste mês. A previsão de seu editor, a alemã Taschen, é de que entre 500 mil e um milhão de livros sejam vendidos - de duas vezes e meia a oito vezes mais do que Êxodos. A exposição fotográfica chega a São Paulo em 11 de setembro.
Muito além do sucesso comercial, entretanto, Genesis significa para Salgado uma espécie de renascimento. Em suas reportagens, o fotógrafo que antes imortalizava homem e agora registra habitats reencontrou a esperança. Em lugar da depressão que o abalou ao fim de Êxodos, Genesis lhe traz entusiasmo, fascinação e otimismo. Salgado descobriu que a Terra, por mais abalada que esteja pela intervenção do homem, ainda vive. A seguir, a síntese da entrevista concedida ao Estado em seu ateliê um dia após a sessão de autógrafos realizada de Paris na sexta-feira.

Você construiu sua carreira registrando o homem e suas questões econômicas, políticas e sociais. Ao que consta, ao fim de Êxodos você estava abalado, perdendo a fé na humanidade e decidiu parar de fotografar. É isso?

(Sebastião Salgado) Sim, eu parei de fotografar um momento. Quando estava fazendo Êxodos, sofri uma carga psicológica brutal. Em Ruanda, principalmente, vi coisas terríveis. A força de se trabalhar em um universo difícil, violento, é enorme. Eu presenciei 15, 20 mil mortos por dia, a tal ponto de não se poder enterrar as pessoas. Os corpos se acumulavam em montes, em linhas de 100 metros de mortos. Aí vinha a máquina e levantava 30, 40 corpos e os jogava em um buraco. Era uma coisa brutal. Vi populações em total desespero. Quando terminei esse trabalho, meu corpo inteiro estava doente. Eu não conseguia mais dormir, não fazia mais a digestão. Fui ver o médico e fiz exames. Ele me disse: "Você não tem nada, mas está morrendo". Eu tinha vivido um universo de degradação tão profundo que meu corpo não se dava mais o direito de viver.

Com foi a redescoberta? 

(continua na postagem 96)


terça-feira, 30 de abril de 2013

94- O Touro de Nova York Crochetado

Olek e o Touro de Nova York 
A artista plástica Agata Oleksiak (1978), que ficou conhecida por Olek Crocheted, é polonesa naturalizada americana. 
Olek criou "esculturas de vestir" em croché para vários projetos. 
Em 2009, declarou:"O croché é uma metáfora da complexidade e interconectividade do nosso corpo e seus sistemas. As conexões são mais fortes num tecido em vez de fios separados, mas se cortar um fio a coisa toda desmorona". 
No final de 2010, Olek instalou uma roupa de malha no Touro de Nova York, em homenagem a Arturo Di Modica. 
Em 1989, assim como ela, Di Modica instalou sem permissão a escultura do touro pesando 3,2 toneladas, em frente ao prédio da Bolsa de  Nove York.
A obra, que pertence ao seu autor, tem hoje uma autorização temporária para permanecer na cidade na categoria de "arte em empréstimo. Uma permissão temporária que já dura mais de vinte anos.
A forma como se deu  a instalação de Olek se denomina "arte de guerrilha". 
Diferente do trabalho de Di Modica, o croché de Olek foi arrancado duas horas depois de pronto por um zelador do parque.
Afinal, "não fica bem" o Touro de Nova York, com sua postura agressiva, símbolo da força e do poder do povo americano, uma alusão à potencia financeira do país, "vestidinho de croché estampado, cor de rosa choque", né?
Felizmente prá nós, foi o tempo  suficiente para que o  touro crochetado fosse muito fotografado!

NOTAS:
1- Sobre o Touro da Wall Street ver postagens 49 e 58 deste blog.
2- Agradecimento especial à Cecília Bosisio pela dica para esta postagem.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

93- A Arte do Boi Espermático - parte 3 de 3


Na postagem 47 - O Boi na Grécia, de julho de 2011, abordamos o tema da  origem grega da  tauromaquia, a arte de tourear sem armas. Eram espetáculos em que o homem interagia com o animal de forma lúdica, desenvolvendo verdadeiras danças acrobáticas. A arte que se fala aqui é outra. É a arte do boi , sob o ponto de vista do mercado pecuário: a produção de sêmen (1).

Fajardo da GB (foto) foi um campeão muitas vezes premiado. Na flor da idade chegou a produzir 500 doses diárias de sêmen, cada uma podendo gerar um bezerro. Em 2005, suas doses eram vendidas por 350 reais correspondendo a 175 mil reais por ejaculação diária. Aposentou-se batendo o recorde nacional de capacidade espermática: 480 mil doses de sêmen.

Em 18 de fevereiro de 2009, quando morreu de enfarte aos 16 anos, a notícia correu o pais:  "O futebol sem Pelé, as corridas sem Senna, a pecuária sem Fajardo". 

A morte dos grandes reprodutores é sentida duas vezes. Primeiro na sua morte propriamente dita. Entristecem-se os donos e os tratadores do animal. A segunda é quando termina o estoque do esperma.  Até desaparecer para sempre, um touro pode resistir por décadas no limbo genético, desde que seu esperma seja congelado em nitrogênio líquido, a -196º C. É sua morte mercadológica. Entristecem-se os fazendeiros que sonhavam ver suas vacas fecundadas por um campeão.

Fajardo se transformou num ícone da pecuária brasileira.  O preço da dose do sêmen de um boi espermático como ele varia como no mercado de arte, em que o quadro bom valoriza ainda mais depois que o artista morre. 

Mas artista morre e sua obra fica... Assim também ocorre com a força da vida simbolizada pelo sêmen! Dizem que Fajardo da GB retornou clonado. (3)


 NOTAS:
1) Sobre o sêmen, o talentoso médico Galeno de Pérgamo(129-199) afirmava que provinha do cérebro. Suas teorias dominaram a ciência ocidental por mais de um milênio. Na Idade Média, acreditava se que a medula dorsal estendia se do cérebro ao falo de onde vem o sêmen - assim se lê no Bahir, o trabalho místico do 1o século, também conhecido como Midrash do Rabino Nehunya ben Hakanah. O sêmen simboliza a força da vida, e a vida humana só pode descender daquilo que caracteriza o homem, sede de suas faculdade próprias;
2) Fonte:  "Fajardo, in memoriam, Vida e obra de um bovino espermático", de Roberto Kaz, revista Piauí de 8 de junho de 2009;
3) http://www.ruralpecuaria.com.br/2011/04/1-clone-de-um-reprodutor-fajardo-da-gb.html
"O reprodutor que era de propriedade da Agropecuária J Galera, produziu mais de 460 mil doses de sêmen, sendo pai de animais que conquistaram grandes títulos em pista. Foi Grande Campeão 1994, Melhor Macho Jovem do rank da ACNB nos anos de 1993 e 1994 e Bi-Campeão da ACNB (97/98 e 98/99). Ele é um dos grandes genearcas da raça Nelore e sua genética construiu um dos pilares do melhoramento genético brasileiro. O sucesso do animal levou a J Galera a cloná-lo. O responsável pelo trabalho foi Flávio Meirelles, que afirma que o clone produzido tem o mesmo genótipo do Fajardo original, entretanto ele não descarta e influência do ambiente no desempenho futuro do reprodutor. “Ele é o primeiro reprodutor clonado a ingressar oficialmente em uma central no Brasil” afirma Marcos Labury, gerente de corte da Alta Genetics. Para ele, o retorno de Fajardo trará enormes benefícios para o rebanho brasileiro “É uma oportunidade de continuar a espalhar a genética melhoradora de seu pedigree” afirma."
4) Veja ainda postagens: 72- A Arte do Boi Espermático - parte 1 de 3 e 73- A Arte do Boi Espermático (parte 2 de 3), de março e abril de 2012, respectivamente.

segunda-feira, 11 de março de 2013

92- Máscaras e Dança na Funarte na conferência de Martha Pires Ferreira em 1982


Em 1982, eu era aluna da Angel Vianna do que se chamava na época de Expressão Corporal. Minha colega de curso, Márcia Padilha me convidou e ee convidei meu amigo Marco Antonio Moura Dias para uma performance na Funarte, relacionada a máscaras. De cara aceitamos. Ele era um artista plástico eclético e se dispôs a nos ensinar a fazer máscaras de papier marché.
A performance aconteceria durante uma conferência de Martha Pires Ferreira, artista plástica e astróloga de renome (1). Tivemos uma entrevista com Martha em sua casa em Santa Teresa. Aos poucos, fomos nos inteirando melhor do que era esperado da nossa participação.
Movidos pelo mais puro desejo de criar e interagir, Márcia, Marco e eu nos encontramos para produzir nossas máscaras. Até chegarmos às definitivas foram   uns quatro encontros que renderam muita filosofia e algumas outras máscaras não escolhidas. 
As máscaras em papier marché tinham a mesma base de argila cujo tamanho era cerca de 40% maior que um rosto normal. A do Marco, depois da pintura e dos adereços, era de um dançarino de tango (foto acima).  A da Márcia era ela mesma (na foto acima, abraçada  pelo dançarino). E a minha máscara era metade dia e metade noite (foto ao lado).
A Martha chegou para conferência com um visual impactante. Lá se vão mais de trinta anos e, infelizmente, não tenho registro fotográfico dela, mas guardo na lembrança o seu rosto pintado e sua túnica estampada em cores vivas. Era uma deusa primitiva! Em contraste com essa imagem, dissertava daquele jeito aquariano articulado, acompanhando a projeção de slides que mostrava a máscara desde os primórdios paleolíticos até a máscara do astronauta na lua. Enquanto isso, nós três circulávamos pela platéia com nossos trajes mascarados, reagindo com gestos largos, exagerados, ao que a Martha ia falando e que estávamos ouvindo pela primeira e única vez. 
No final, distribuímos entre os presentes as demais máscaras que produzimos.
Assim, dançamos todos juntos ao som da “Máscara Negra”, de Zé Keti, e de “Quem é Você”, de Chico Buarque.
“A dança foi algo inédito dentro da Funarte”, disse Martha, que guardou e me enviou as informações abaixo do cartaz do evento:
A máscara como expressão plástica.
Conferências Audiovisuais
Espetáculos de mímica
Máscaras - no culto, no teatro, nas tradições.
Espaço Alternativo
FUNARTE 20/ setembro a 15/outubro 1982

NOTAS:
1)  Martha Pires Ferreira foi amiga e colaboradora da Dra Nise da Silveira. Atualmente é coordenadora das Artes Plásticas na Casa das Palmeiras. Autora do blog Cadernos Aquarianos.
2)   Fotos tiradas por Mario Victor Monteiro na Sala de Exposição da Funarte, RJ.
3)   Veja no Youtube: Martha Pi Ferreira, por JuliaAndrade2011.

segunda-feira, 4 de março de 2013

91- As Máscaras do Boi na Vivência Mítica, Escola Angel Vianna


Máscaras do Boi - Vivência Mítica, Escola Angel Vianna

Na vivência mítica realizada na Escola Angel Vianna, foram muitas as danças, toadas e reflexões até chegar o momento da feitura da máscara do boi. Aí, pareceu um tempo sem tempo. Os participantes se redescobriram criando, brincando, transformando a imaginação em  formas, cores e movimento no espaço físico.
Embora o tema proposto tenha sido o mesmo para todos, cada um fez surgir na sua máscara de boi o seu tema particular, relacionado ao  inconsciente pessoal .
Mas o fazer, o vestir e dar vida à máscara através do movimento também nos remete a experiências do coletivo, desde a ancestralidade humana.
O mais antigo registro do uso de máscara que se tem notícia foi deixado nas paredes da caverna de Lascaux, na França, datado de cerca de 14.000 AC. Essas gravuras rupestres mostram caçadores mascarados com cabeças de animais. Supõe-se que acreditavam poder assim adquirir as forças instintivas destes animais e garantir o sucesso da caça. As máscaras usadas ritualisticamente primavam pela intensa expressividade e serviam como mediação entre a esfera sobrenatural e a natural. (1)
Também usada nos ritos de iniciação, a máscara do iniciador simbolizava o espírito que instruía o adolescente de que naquele momento ele morria na sua condição anterior para nascer na condição adulta.
Mais próximas à cultura atual, as tradições gregas conheceram as máscaras rituais das cerimônias e das danças sagradas, as máscaras funerárias, as máscaras votivas, as máscaras de disfarce e as máscaras teatrais. Aliás, foi esse último tipo de máscara, figurando como um personagem (PROSOPON) que deu nome à “pessoa”.
A máscara teatral, que é também das danças sagradas, é uma modalidade e um manifestação do Self universal. A personalidade do portador em geral não se modifica, o que significa que o self é imutável.
Por outro lado, uma modificação pela adaptação do ator ao papel, pela sua identificação com a manifestação divina que figura, é o próprio objetivo da representação. Pois a máscara, especialmente sob seus aspectos irreais e animais, é a Face divina. (2) 

NOTAS:
1) Ref.: C. G. Jung; O Homem e seus Símbolos. Editora Nova Fronteira, 2008.
2) Ref.: Chevalier, J. e Gheerbrant, A.;  Dicionário de Símbolos, mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras cores, números. Ed José Olympio, 18o.
3) Mais sobre máscaras de bicho, ver neste blog: Postagem 5- A Máscara de Oncinha da Dra Nise; Postagem 10- Quando o Animal vira O Bicho!; Postagem 37- O Boi na Grécia: O Minotauro e a Máscara do Touro; Postagem 40- Reflexões Minotaurinas.